23
2011
Presentes perdidos
Infelizmente não existe um achados e perdidos para presentes, pois parece que tudo que poderíamos ganhar, mas não ganhamos nunca foi nosso. Aliás o que é nosso? Onde começa e termina a nossa propriedade do presente? Pesquisas comportamentais contemporâneas insinuam que o homem tem mais medo de perder do que gana para ganhar. Nosso maior terror é perder aquilo que nos pertence, mesmo que seja uma promessa. E, promessas são os presentes de maior recorrência na atualidade. Quem nunca deu ou ganhou uma promessa?
No fundo, um dos sentimentos mais populares entre a corrente do bem, a esperança, é a colagem entre a promessa e a propriedade. Em uma das versões do mito de Pandora, a esperança é um mal que ficou dentro da caixa (que não é caixa); a esperança como esse motor de se apropriar de imagens em pura possibilidade. A esperança como aquele tempo de esperar a resolução dos céus enquanto a vida acontece.
Em tempos de tanta fartura de presentes vale também perguntar o que é um presente? Muitas vezes, um livro, um gesto, ou uma memória são muitos mais presentes e muitos mais nossos até antes de serem qualquer matéria – aquela velha história de algo ser a nossa cara.
Enfim, nunca terá fim se ainda acreditarmos que perder existe uma vez que nada pertence; o perder é o sintoma da crença da propriedade e como disse aquele que nasceu há mais de dois mil anos atrás: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A propriedade é a realidade da matéria de nosso sistema e não a possibilidade de diálogo de nossa alma, não podemos ganhar promessas vazias nem pacotes lindos com conteúdo desinteressante; quantos presentes perdemos quando vimos só o objeto ou coisa que nos era dado? Quantos tesouros se foram por que o coração não entendeu a força da alma? A separação dos presentes materiais dos anímicos é a morte do espírito e a interpretação de um pelo outro é miopia tirânica.



