dez
16
2011

Prioridades de desconforto

Residentes de uma sociedade que ainda tem o espetáculo como uma inércia social, sentimos e sofremos de uma miopia existencial. Ficamos revoltados com um cachorro sendo cruelmente assassinado e, simplesmente, deixamos de olhar para temas como crianças  carentes, seres humanos que vivem em subcondições de vida na rua, o sistema educacional e tantas outras mazelas do mundo contemporâneo. Claro que o ato de crueldade deve ser punido, no entanto, o afinco com que o tema é tratado, inclusive com abaixo assinado, indica que alguma coisa não mudou muito desde Roma com o coliseu. O conteúdo do espetáculo mudou, porém o fascínio que ele exerce nas massas não mudou nada.

Listar e abrir uma discussão sobre a relação da massa social com o espetáculo não cabe aqui, mas talvez uma provocação seja possível: a nossa resitência ao desconforto está deixando o mundo cada vez mais mediocre. Hoje, escolhemos o desconforto espetacular, escolhemos a situação em que a implicação para a mudança é quase nula ou realmente nula e vivemos em inércia; pagamos para não ver o que interessa, pagamos para assistir o espetáculo, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo.

As sociedades só mudarão quando aprendermos a conviver com o desconforto, com a pulga atrás da orelha que movimenta a alma ao amadurecimento. Não crescemos e não nos implicamos sem o empurrão do desconforto. Precisamos entender que sombra e água fresca não quer dizer falta de implicação e atrito. Não podemos apenas viver de hábitos como o espetáculo, o drama narcísico e a sedução do consumo. Não falo em acordar e, de repente, termos mudado, mas falo de um processo longo em que definimos prioridades, incitamos a educação do desconforto e crescemos até o ponto em que as antigas rotinas percam energia  para o compromisso pela mudança.

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