16
2011
Prioridades de desconforto
Residentes de uma sociedade que ainda tem o espetáculo como uma inércia social, sentimos e sofremos de uma miopia existencial. Ficamos revoltados com um cachorro sendo cruelmente assassinado e, simplesmente, deixamos de olhar para temas como crianças carentes, seres humanos que vivem em subcondições de vida na rua, o sistema educacional e tantas outras mazelas do mundo contemporâneo. Claro que o ato de crueldade deve ser punido, no entanto, o afinco com que o tema é tratado, inclusive com abaixo assinado, indica que alguma coisa não mudou muito desde Roma com o coliseu. O conteúdo do espetáculo mudou, porém o fascínio que ele exerce nas massas não mudou nada.
Listar e abrir uma discussão sobre a relação da massa social com o espetáculo não cabe aqui, mas talvez uma provocação seja possível: a nossa resitência ao desconforto está deixando o mundo cada vez mais mediocre. Hoje, escolhemos o desconforto espetacular, escolhemos a situação em que a implicação para a mudança é quase nula ou realmente nula e vivemos em inércia; pagamos para não ver o que interessa, pagamos para assistir o espetáculo, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo.


