Prevenção é questão de amor 

“Renunciar ao amor parece-me tão insensato quanto desinteressar-se da saúde porque acreditamos na eternidade.”

Sempre relacionei esse pensamento belíssimo de Simone de Beauvoir aos cuidados específicos que a mulher precisa ter com sua saúde para se prevenir de doenças típicas femininas e aos cuidados com sua beleza. Afinal, quando uma mulher renuncia ao amor é quase que o equivalente a renunciar à própria vida, deixando de se preocupar com sua a aparência e bem-estar.

Nós, mulheres, temos consciência de que nenhum rostinho e nenhum corpinho duram para sempre. Mais cedo ou mais tarde, as ruguinhas aparecem, fios brancos nascem, uma leve flacidez vai tomando conta dos braços – e quem ama e pretende amar muito se trata bem para ficar bem. Mulheres usam mil artifícios para manter e atenuar os efeitos do tempo fazendo limpezas de pele, tinturas no cabelo, drenagens linfáticas, tendo uma alimentação balanceada, praticando exercícios físicos e ficando de olho em qualquer novo tratamento que apareça e que prometa aplacar os efeitos da idade oferecendo de brinde uns anos a menos.

Hoje vejo que o hábito de cuidar da beleza incorpora também os cuidados com a saúde, e exames preventivos também passam a fazer parte da agenda feminina. Mamografia anual a partir dos 30 anos, papanicolau a cada 6 meses, eletrocardiograma e check-up depois dos 35, dosagens hormonais e densitometria óssea para prevenir possíveis descalcificações, exames de sangue para medir níveis de colesterol, diabetes e triglicerídeos a partir dos 25 anos… Aposto que se você é mulher com mais de 18 anos já deve ter feito pelo menos um dos exames que citei. Se você ainda não fez nenhum desses exames, por favor, corra. Vá até um ginecologista e marque uma consulta.

A contradição é sinistra: as doenças que mais acometem mulheres no mundo todo, se diagnosticadas a tempo, podem quase sempre ser tratadas e curadas. Em seu estágio avançado, no entanto, podem levar à morte. Minhas duas avós sofreram e vieram a morrer de doenças que poderiam ter sido detectadas com antecedência. Uma teve um câncer de mama e a outra uma doença cardiovascular. Ambas viveram numa época em que não havia a tecnologia, a cultura e tampouco o hábito de fazer o auto-exame do peito todo mês, e quando não se considerava que a mulher fosse tão ‘infartável’ quanto o homem.

Os exames anuais devem ser realmente ‘anuais’, já que, no caso do câncer as células doentes se duplicam a cada 90 dias no organismo. Na prática, ninguém tem desculpa para não fazer isso. Porque até a rede pública de saúde, o SUS, oferece todos os exames preventivos gratuitos e ainda tem a meta (e a obrigação) de ampliar o número de atendimentos às mulheres brasileiras até 30 de abril de 2009, realizando as consultas em no máximo 15 dias depois do agendamento.

Agora, juro que não sou existencialista, mas Simone de Beauvoir volta aqui para fechar o texto. Me lembrei dessa foto. Ah, diga se não ficaria ótima numa campanha de prevenção ao câncer de mama, ela assim, toda poser se preparando pra fazer o auto-exame. Acho até mesmo que ela curtiria a ideia.

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Simone de Beauvoir, foto: Art Shay, 1952

Postado por Liliane Ferrari às 20:55 | 10/03/2009 | 2 comentários